CEO B2B precisa vender sem virar refém da venda. Em muitas empresas de serviços, chega um momento em que o fundador se pergunta se deveria sair da operação comercial para ela amadurecer.
A dúvida faz sentido. Porém, ela costuma partir de uma premissa incompleta.
Grande parte dos CEOs continua sendo decisiva nas vendas mais importantes. Afinal, eles conhecem o mercado, dominam os cases, entendem as dores dos clientes e carregam um repertório difícil de transferir rapidamente.
Por isso, quando dizem “se me colocar na frente do cliente, eu fecho negócio”, nem sempre estão inflando o próprio ego. Muitas vezes, estão descrevendo uma vantagem competitiva real.
Portanto, a questão central está em transformar essa vantagem em método. Sem isso, o CEO entra em cena o tempo todo, mesmo quando aquele não é o seu palco.
Quando isso acontece, sua presença deixa de ser uma alavanca estratégica. Em vez disso, passa a ocupar espaços demais dentro da operação comercial.
A falta de método é o verdadeiro problema
Recentemente, conversei com o CEO de uma empresa B2B de serviços com mais de vinte anos de mercado.
A empresa tinha CRM, marketing estruturado, equipe comercial, investimento em geração de demanda e uma operação acima da média. Ainda assim, ele trouxe uma constatação direta: nas vendas mais importantes, ele e os sócios fechavam os negócios.
Esse cenário não é estranho. Além disso, em vendas complexas, o repertório do fundador ajuda a ler melhor o cliente, conectar dores com soluções e gerar confiança mais rápido.
No entanto, o risco aparece quando a operação depende dessa presença. Principalmente quando ninguém sabe exatamente quando, por que e para quê o CEO deve entrar.
Nesse caso, reuniões, alinhamentos, revisões de proposta e negociações travadas começam a consumir a agenda do CEO.
Ele continua vendendo. Porém, perde capacidade estratégica.
Aos poucos, ele parece mais um funcionário experiente da própria equipe comercial. Por isso, todos pedem ajuda quando a situação fica complicada. Assim, ele parece menos um CEO estratégico.
O CEO B2B não deve ser desperdiçado
As empresas não deveriam tratar o CEO como alguém que precisa desaparecer da venda. Ao mesmo tempo, também não deveriam acioná-lo como recurso de emergência.
Existe uma diferença importante entre participar para aumentar a conversão e participar para compensar falhas do processo.
No primeiro caso, o CEO amplia o impacto da venda. Já no segundo, ele carrega nas costas o que a estrutura comercial ainda não aprendeu a fazer.
É justamente aqui que muitas empresas se confundem. Algumas tentam afastar o CEO da venda quando deveriam organizar sua participação. Por outro lado, outras mantêm o fundador envolvido em tudo.
Em ambos os casos, existe desperdício. Afinal, o tempo mais caro e estratégico da empresa passa a ser usado em atividades de baixo impacto.
O que a experiência de mercado mostra
Esse conflito aparece quando o CEO percebe que sua presença continua sendo decisiva para vender. Porém, ela também começa a consumir o espaço dedicado à direção estratégica da empresa.
Esse incômodo surge muito em empresas que cresceram e profissionalizaram parte da estrutura.
Elas contrataram vendedores, investiram em marketing e implantaram ferramentas. No entanto, ainda não transformaram o repertório do CEO em inteligência comercial compartilhada.
No caso citado, havia investimento em site, mídia, CRM e geração de demanda. Portanto, a preocupação do CEO era objetiva.
A empresa estava se preparando para gerar mais oportunidades. No entanto, ele não confiava que a operação comercial conseguiria convertê-las com a qualidade necessária.
Esse ponto é essencial. Afinal, o gargalo nem sempre está na geração de demanda. Muitas vezes, está na capacidade de aproveitar as oportunidades certas sem depender sempre das mesmas pessoas.
Como transformar o CEO B2B em alavanca comercial
A solução começa por organizar a participação do CEO no processo de vendas. Portanto, isso deve acontecer sem romantizar sua presença e sem tentar eliminá-la artificialmente.
Em outras palavras, a empresa precisa descobrir qual é o palco certo para o CEO em marketing e vendas.
Esse palco é o espaço em que sua presença gera confiança, avanço e conversão. Ao mesmo tempo, ele não transforma sua agenda em extensão da operação comercial.
1. Identificar a zona de genialidade comercial do CEO
O CEO pode ser muito bom em engajar seguidores, construir relacionamento, conduzir uma discovery técnica, negociar ou fechar negócios. Cada CEO tem uma força diferente. Portanto, a empresa precisa entender qual é o seu verdadeiro palco. Esse palco é o momento em que sua presença realmente aumenta a chance de avanço comercial.
2. Formalizar a participação do CEO no processo comercial
A entrada do CEO não pode surpreender o vendedor. Além disso, também não pode criar sensação de desautorização. Todos precisam saber em que momento ele participa, com qual objetivo e qual responsabilidade continua com a equipe comercial. Assim, a presença do CEO deixa de ser improvisada e passa a ser parte do método. Dessa forma, toda a equipe entende seu papel no processo.
3. Proteger agenda para a atuação estratégica
Se a presença do CEO gera impacto, marketing e vendas precisam sincronizar ações com sua agenda. Eventos, reuniões estratégicas, negociações importantes e ações de relacionamento não podem depender apenas de encaixes improvisados. Por isso, a empresa deve tratar a agenda do CEO como um ativo estratégico.
4. Transformar a atuação do CEO em escola para a equipe
Mesmo quando uma etapa pertence à zona de genialidade do fundador, marketing e vendas devem acompanhar o processo. A equipe precisa observar como ele pergunta, escuta, interpreta contexto, constrói valor e conduz decisões. Consequentemente, esse conhecimento passa a fazer parte da operação.
5. Medir o impacto da participação do CEO
A empresa precisa identificar em quais oportunidades o CEO aumenta a conversão. Além disso, deve identificar em quais etapas ele acelera decisões e onde sua presença realmente agrega valor. Essa medição evita dois erros comuns: o afastamento excessivo e a centralização improdutiva.
Com esse conjunto de práticas, o CEO deixa de ser chamado apenas quando algo trava. Em vez disso, passa a ser usado de forma consciente nos pontos críticos da venda.
Onde surge resistência
A principal objeção de um CEO B2B a essa abordagem é previsível.
Afinal, formalizar sua participação nas vendas não aumentaria ainda mais a dependência da empresa em relação a ele?
A resposta depende da forma como isso é feito.
Quando a participação continua desorganizada, a dependência aumenta. Além disso, a equipe não aprende, o processo não evolui e o fundador segue sendo acionado por hábito.
Por outro lado, quando existe método, acontece o inverso.
A presença do CEO passa a gerar aprendizado para marketing e vendas. Além disso, o repertório antes concentrado em poucas pessoas começa a aparecer em reuniões, abordagens, perguntas, propostas e critérios de qualificação.
A empresa não elimina a importância do fundador. Porém, reduz a dependência caótica da sua intervenção.
O sucesso está em usar melhor o tempo do CEO
Quando a empresa organiza esse processo, o CEO volta a atuar onde realmente gera crescimento.
Demandas comerciais de baixo impacto deixam de consumir sua agenda. Assim, ele passa a direcionar seu tempo para momentos em que sua presença pode mudar o resultado.
Isso não significa afastamento das vendas. Pelo contrário, significa foco.
Também significa entender que o tempo do CEO é um ativo estratégico. Portanto, a empresa precisa protegê-lo com o mesmo cuidado dedicado ao caixa, à marca e aos melhores clientes.
De gargalo operacional a ativo estratégico
A transformação desejada não é criar uma empresa onde o CEO nunca aparece na venda.
Em muitos negócios B2B, isso seria contraproducente. Na verdade, a transformação real é criar uma operação em que sua presença seja consciente, planejada e conectada aos pontos críticos do processo comercial.
O CEO vira gargalo quando sua participação acontece sem critério. Por outro lado, quando existe método, sua presença acelera resultados.
Quando a empresa entende onde ele gera impacto, tudo muda. Então, ela organiza sua entrada no processo, protege sua agenda, transforma sua atuação em aprendizado e mede os resultados.
Com isso, o CEO deixa de ser um centro de dependência. Assim, passa a ser uma alavanca de crescimento.
Mais do que isso, esse CEO descobre qual é o seu verdadeiro palco em marketing e vendas.
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